Ética
e Moralidade
Na
última fase de sua obra, Foucault se voltou menos a descrever o funcionamento
do poder disciplinar na sociedade moderna e mais a definir os espaços para a
liberdade que tal sociedade permite aos seus membros tanto na esfera política
quanto na ética.
Foucault
percebia a ética como prática de liberdade ou libertação: “Liberdade é condição
ontológica da ética. Mas ética é a forma deliberada assumida pela liberdade”. A
ética é a forma que se dá à prática da liberdade de alguém.
Definiu
ética como “a relação que se tem consigo mesmo quando se age”. Distinguiu-a,
portanto, da moralidade, que tem haver com a sua relação com os outros, com
códigos de comportamento prescritos para todos, e que se relaciona com
imperativos, regras de conduta ou ordens. Em contraste com a ética, que tem a
ver com a liberdade, a moralidade tem a ver com a verdade, com “jogos de
verdade”, como Foucault os chama.
Os
jogos de podes têm a normalidade como sua preocupação central. Em ambos, a
verdade é representada como a expressão de uma normalidade, como uma questão de
conviver com as normas estabelecidas, e a falsidade como o abandono ou traição
dessas mesmas normas.
Subjetivar
é impor uma ética a alguém, uma relação que se tem consigo mesmo que
corresponda a uma moralidade convencional que se reconheça como verdadeira, e
agir de um modo reconhecidamente aprovado por essa mesma moralidade.
Foucault
definiu a moralidade convencional primeiramente como um código moral que pode
ser mais ou menos explicitamente formulado; segundo como o comportamento real
de quem está sujeito a esse código, e terceiro como o modo pelo qual os
indivíduos se constituem como sujeitos morais do código, isto é, o modo como
eles conduzem a si mesmos ou levam a si mesmos a obedecer, ou desobedecer, um
conjunto de prescrições.
A ética
entendida por Foucault difere dos outros aspectos da moralidade no fato de que
não é um campo de regras, princípios ou preceitos, é um campo de nossa autoconstituição
como sujeitos. Consiste em um conjunto de atitudes, praticas e metas pelos
quais guiamos nossa autocompreensão moral. Dessa forma, a ética é um
subconjunto da categoria da moralidade. É aqui que Foucault localiza o aspecto
da subjetivação.
Não
há liberdade sem poder, mas, igualmente, não há poder sem liberdade, um é
condição do outro. Foucault afirma que a liberdade não é um estado pelo qual
lutamos, é uma condição de nossa luta. É também condição da auto-expressão
ética e da educação do indivíduo. Não ter poder não é ter liberdade, e
vice-versa; é ser dominado pela vontade de outrem, carecer completamente de
poder-liberdade.
Foucault
dispensa a ideia kantiana de uma lei universal da razão, mas retém a ideia de
autonomia como um sinal de maturidade moral e intelectual, e nos convida a
criar “novas formas de subjetividade por meio da recusa desse tipo de
individualidade que foi imposto a nós por vários séculos”, o que inclui a
subjetivação de nossa consciência pela moralidade convencional.
“Talvez o objetivo hoje não seja descobrir o
que nós somos, mas recusar o que somos. Temos de imaginar e construir o que
poderíamos ser para livrarmo-nos desse tipo de “duplo-cego” político, que é
simultânea individualização e totalização das estruturas de poder.”
Saber
como alguém se constitui como sujeito, subjetivado, pelas diferentes economias
de poder, os processos e práticas que constituem o eu de alguém como um eu
aculturado, inclusive como a consciência de alguém é constituída por uma
moralidade convencional.
A
rejeição por parte de Foucault da moralidade convencional conecta sua ética
como o famoso e notório imoralismo nietzschiano; o entendimento que Nietzsche
tem da ética como uma transvaloração de valores; sua bem conhecida tarefa de
jogar a ética para além do bem e do mal.
MacIntyre
(1987) reclama de uma perda da educação no mundo moderno, que ele atribui a
nossa cultura modernista. Ele a atribui à incapacidade crônica das escolas
modernas de resolver a tensão entre as tarefas simultâneas que lhes são
conferidas para socializar os jovens em papéis que a sociedade requer e para
torná-los indivíduos.
MacIntyre
descreve a cultura modernista como uma cultura burocrática e manipuladora no
contexto público e caoticamente permissiva no privado, na esfera ética.
Foucault compartilha dessa avaliação do mundo moderno, mas rejeita a política
do público educado.
Tanto
para Nietzsche quanto para Foucault, a ética, como trabalho que o sujeito faz
sobre si mesmo, e a educação são uma e a mesma coisa. Nietzsche define a ambas
como autocriação, localizando-as tanto na esfera moral quanto na estética.
De
acordo com Foucault, educação é auto-educação, mas isso não quer dizer que não
requeira professores, grandes educadores, como Nietzsche os chama; mas esses
são apenas exemplos a seguir. Foucault prefere a expressão “autoconstituição”.
Nietzsche
via o autoconhecimento como autocriação. O processo de vir a conhecer-se,
confrontar sua contingência, rastrear suas causas até a origem, um processo que
descreve idêntico ao processo de inventar uma nova linguagem, isto é, de pensar
em novas metáforas.
Autocriação
e Imoralismo
Nietzsche se refere ao imoralismo
como “a mais alta forma até agora de integridade intelectual. Refere-se a
pessoas que se tornam muito absorvidas pelas moralidades como “monstros
virtuosos ou espantalhos”.
“Deveríamos ser capazes de também pairar
acima da moralidade e não apenas esperar com a obstinação ansiosa de um homem
que tem medo de escorregar r cair a qualquer momento, mas também que flutue acima
dela e brinque”. Nietzsche é claro quanto ao tipo de moralidade a que essas
declarações negativas se referem; uma que “treina
o indivíduo para ser uma função de uma horda e que confere valor a si mesmo
apenas como função”, como um instrumento, “Moralidade é o instinto de rebanho”. O imoralista, por outro lado,
é o individualista, alguém que “se sente
responsável apenas por sua vontade e ações, e que encontra o orgulho em si
mesmo”.
Não
é que possamos viver sem imperativos morais, mas que os imperativos devam ser
os nossos próprios e originais imperativos, não os imperativos do rebanho, mas
os imperativos, afinal, do autodomínio.
Uma
coisa é necessária para Nietzsche, a de que “um ser humano deva chegar à satisfação consigo mesmo, seja por meio
dessa ou daquela poesia ou arte; só então, é algo tolerável ao olhar. Toda
pessoa que não estiver satisfeita consigo mesma está continuamente pronta para
a vingança, e nós, os outros, seremos vítimas, mesmo que seja apenas por ter de
suportar sua horrível figura. Pois a visão do que é feio nos torna maus e
obscuros”.
O
trabalho da educação para Foucault é “recusar
o que somos” a fim de promover “novas
formas de subjetividade”. A questão central da educação para Nietzsche, não
é promover novas formas de subjetividade, mas descobrir “como alguém se torna o que é”, descobrir o seu eu autêntico.
Glover
(2001) sugere uma redefinição de autocriação e reconhece que ela pode ser “na melhor das hipóteses apenas parcial”;
e que “valorizar a autocriação não é
necessariamente pensar que ela seja o único objeto da vida, que tenha de
dominar todas as outras coisas”. A autocriação não precisa absorver a vida
ao ponto de que seja ilimitada e se torne o egoísmo implacável admirado por
Nietzsche. Poderia ser encaixada em uma ética de cuidado por outras pessoas. “Meu cuidado sobre o tipo de pessoa que sou
motiva o projeto de autocriação. Por que meu cuidado em relação a outras
pessoas não deveria estabelecer limites a ele?”. Essa parece ter sido a
última visão de Foucault também. Sua última obra foi de fato dedicada à
exploração de uma ética do cuidado de si, uma moralidade na qual o projeto
ético de autocriação poderia estar contido de forma diferente da de Nietzsche.
Foucault
quer que a autocriação seja uma recusa, uma superação de uma dada identidade,
do modo pelo qual a pessoa se sujeita por meio “da individualização simultânea e da totalização das estruturas de poder
modernas”. Como Nietzsche, ele considera essa autossuperação como algo
violento e doloroso; uma “experiência-limite”, que implica a tarefa de
“dilacerar” o sujeito de si mesmo.
A
Autocriação e a Ética do Cuidado
A noção
de autodomínio, como a autocriação, está no âmbito do reino da liberdade, e no
âmbito do controle e do governar. Existe uma tensão entre os dois. Como a
autonomia, o autogoverna-se implica obediência a regras que se faz para si
mesmo. Foucault resume a relação entre cuidado de si e moralidade. Ele diz:
“O cuidado de si é naturalmente conhecimento
de si, esse é o aspecto socrático-platônico, mas é também o conhecimento de
certo número de regras de conduta ou de princípios que são ao mesmo tempo
verdades e regulações. Cuidar de si é prover-se dessas verdades. É aí que a
ética se relaciona ao jogo da verdade”.
Moralidade
entendida como um foco ao redor do qual a reflexão se desenvolve, onde as
práticas de si tomam a forma de uma arte de si relativamente independentes da
legislação moral. Assim se entendia na Antiguidade, mas a cristandade reforçou
o princípio da estrutura legal e codificada, mesmo quando as práticas de
ascetismo continuavam a dar importância às práticas de si. Com a cristandade,
com a religião do texto, passamos de uma moralidade que era essencialmente a
busca de uma ética pessoal a uma moralidade como obediência a um sistema de
regras.
A
moralidade, de acordo com Foucault, requer uma sensibilidade ética mais alta do
que a que se baseia na obediência a regras impessoais.
Uma
ética do cuidado de si, para Foucault, não significa escapar das
responsabilidades sociais e políticas.
“O cuidado de si é ético em si mesmo; mas
implica relações complexas com os outros na medida em que esse ethos de
liberdade é também uma maneira de cuidar dos outros... o problema das relações
com os outros está presente no desenvolvimento do cuidado de si.
O
cuidado de si sempre objetiva o bem-estar dos outros; objetiva lidar com o
espaço de poder que existe em todas as relações, mas lidar com ele de uma
maneira não-autoritária. Segundo Foucault, o cuidado de si é eticamente
anterior na medida que a relação consigo mesmo é ontologicamente anterior.
A questão do cuidado de si, como cuidado de
seu próprio eu, é sempre mais imediata e premente do que o cuidado para com o
outro, no sentido de que, em última análise, é sempre o indivíduo e seu próprio
comportamento que está em questão e sobre o qual se tem o controle mais
imediato, mesmo quando o que está em questão é a relação com a outra pessoa ou
outras pessoas. Foucault não está sugerindo qualquer ordenamento sequencial de
preocupações, com o cuidado de si precedendo o cuidado para com o outro, nem
que a auto-recusa precise preceder a auto-afirmação; ao contrário, o cuidado
pelo outro é intrínseco ao cuidado de si, e não algo que se lhe diga,
justamente como a auto-recusa ocorre no próprio processo de auto-afirmação, e
não antes dela.
Como
diz Levinas, estamos sempre no processo de cuidar do outro porque a face do
outro está sempre presente para nós e convoca nossa resposta-responsabilidade.
Foucault entende essa resposta-responsabilidade como uma ética do autodomínio
que abrange um governar próprio da relação com o outro na prática da liberdade
própria. Uma ética que evita dominar este ou aqueles, de todas as formas, e que
é, portanto, moral, porque requer regras mesmo que sejam auto-impostas. O
imoralista, por outro lado, é alguém que não deseja ou não pode responder
moralmente à presença dos outros em nossa vida; é alguém que não deseja vê-los
como uma característica intrínseca de seu próprio projeto ético, que é, sempre
e de qualquer maneira, como Glover sugere, social, alguém, enfim, que não está,
portanto, isento de dominar.

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