segunda-feira, 20 de julho de 2015

PENSAR A PEDAGOGIA COM DELEUZE E GUATTARI: AMIZADE NA PERSPECTIVA DO APRENDER



Nos pensamentos de Deleuze e Guattari não se encontra uma Filosofia da Educação, eles não fazem incursões à Pedagogia. Sendo assim, como entender as relações pedagógicas em Deleuze, já que ele não defendeu uma pedagogia específica ao longo de sua obra?

O tema da Pedagogia e da Educação, embora não explícito nem extensamente tratado por Deleuze e Guattari, merece uma abordagem dentro dos quadros de seu pensamento.

Os vetores programáticos ou os lemas para se pensar a Pedagogia e a Educação com Deleuze e Guattari, entre muitas possibilidades, são: a aula como acontecimento, uma pedagogia rizomática, o encontro entre professor e aluno etc.

Na obra de Deleuze e Guattari pode-se tomar como sugestivo para a Filosofia da Educação:


Proposições sobre o que significa aprender:

  • ·        Não se aprende através da verdade ou da contemplação, mas à custa de uma violência ou força: sem a pressão das circunstâncias nada se aprende.


  • ·         É besteira pensar que a tristeza nos faz aprender algo: um encontro triste nada ensina, ao contrário, a alegria sempre vem acompanhada de um aprendizado, pois alegrar-se significa, do ponto de vista epistemológico, que uma nova relação surge, que há, efetivamente, algo novo a saber.


Proposições acerca da relação entre professor e aluno:

  • ·         A relação que se pode ter com os alunos é ensiná-los a serem felizes com sua solidão.
  • ·        Toda relação para Deleuze tem um caráter pragmático, ou seja, a relação é exterior aos termos relacionados: essa proposição enuncia que a relação pedagógica está fora do professor e fora do aluno, eles se comunicam pela exterioridade. Somente com esta condição, a da relação pela exterioridade, o aluno pode reconciliar-se com sua solidão, isto é, utilizar o ensinamento do mestre para criar algo novo, não previsto na própria relação.

Deleuze declara não gostar de um tipo específico de aluno que surge como expectativa, sempre ilusória, do professor que alimenta o senso comum pedagógico. Tal professor se sente recompensado se suas aulas geram uma reação imediata do aluno, o qual, agitado por dinâmicas apropriadas, torna-se participante ativo e multiplica-se em perguntas e comentários. Tal comportamento é de regra tomado como um índice de que a relação pedagógica é profícua.

Deleuze esquiva-se desse tipo de aluno e da imagem do professor a ele ligada, pois em se tratando de ensino, as reações imediatas são, mais provavelmente, indícios de que o circuito do senso comum se retroalimenta e se efetiva com o afã inócuo do participacionismo. Deleuze considera bons alunos os que lhe devolviam, posteriormente, as questões lançadas, mas com acréscimos de força de mundos desconhecidos ou estranhos ao mestre. Uma aula, por melhor que seja preparada e por mais que envolva treinamento, somente produz ínfimos e imprevisíveis momentos de inspiração. E esses pequenos momentos produtivos não geram no aluno vacúolos de silêncio, de não resposta. É nessa lacuna da aparente passividade que os verdadeiros problemas se afirmam. Esses não aparecem no calor da hora, pois sua apresentação requer um timing próprio.

Os problemas da relação pedagógica, aqueles que conduzem o aprendizado e não o senso comum, somente retornam, se retornam, como bumerangues. Como estes, surgem totalmente deslocados do contexto em que foram gerados. Após descrever sua parábola, o bumerangue já não mais responde às condições de seu lançamento (a sala de aula). Ele obedece a um trajeto intensivo que afeta campos e situações não previstos inicialmente, isto é, o conteúdo que o professor ensina faz um contorno por paisagens não visitadas, por mundos desconhecidos para a escola. As questões de uma aula, somente nas condições de sofrerem um tal deslocamento parabólico, retornando à sala de aula.

Tal relação se dá através do elemento do silêncio. Isso não quer dizer que professor e aluno deixem de falar. O aluno tem de reconciliar-se com sua solidão, no sentido de que ele já não precisa se angustiar com a imagem genérica do bom aluno, daquele que reage prontamente aos estímulos didáticos. O professor também se reconcilia com sua solidão, pois ele se coloca numa atitude de espera, espera de que o aluno-bumerangue o atinja; atitude essa que rasura em sua mente e em seu coração uma imagem pré-concebida de aluno e professor. É mais benéfico falar e dialogar impulsionado pelo vácuo do silêncio do bumerangue que perdemos de vista do que pressionado pela imagem projetada e sempre premente dos resultados.

Afirma Deleuze, “(...) estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vacúolos e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer”.

A relação didática envolve, antes de qualquer coisa, uma guerrilha contra as Potências (o Estado, a TV, a Educação) e, como elas constituem nossa interioridade a relação pedagógica envolve sempre uma luta de si contra si mesmo. A relação pedagógica entre professor e aluno é tal que os leva para fora, despersonificando-os enquanto professor e como aluno.

A relação pedagógica está inclusa nos próprios conceitos de um pensamento. Expor conceitos já é ensiná-los, principalmente porque eles envolvem os ouvintes ou alunos em tipo especial de amizade, uma amizade deleuzeana, pela qual se processa um devir-mestre molecular que passa ao largo das formas majoritárias ou molares do professor e do aluno, desterritorializando-os, desrostificando-os. É que o aprender despersonificado, o do aluno-bumerangue e da solidão é um tipo especial de amizade.

Toda aula já está condicionada por um traço de amizade, o qual pode ser muito diverso, dependendo do caso. Dar uma aula é criar algum tipo de amizade. A amizade que se dá entre professor e aluno é se constrói na exterioridade dos indivíduos. A amizade, portanto, modifica o professor e o aluno. A amizade se dá pelo exterior. É uma amizade impessoal cuja atmosfera nos envolve a todos. A exterioridade é o lugar da amizade. Tal exterioridade foi pensada por Deleuze e Guattari como uma “zona de indiscernibilidade” ou de “vizinhança” onde um elemento põe o outro em devir, de modo que ambos se tornam algo distinto do ponto de partida, devir-mestre e aluno-bumerangue.

Pode-se afirmar que uma pedagogia deleuzeana, por mais restrições que se possa fazer ao adjetivo deleuzeana neste caso, determina um conceito singular de amizade como confiança em um mundo de hábitos passageiros. Como construir uma relação pedagógica num mundo marcado pela instabilidade é o desafio. Deleuze e Guattari solicitam que lancemos um novo olhar para as filosofias pragmáticas da educação, com o propósito de, ao invés de as entendermos como uma espécie de ideologia capitalista, a tomarmos como um antídoto a todo essencialismo em termos pedagógicos, a favor de uma pedagogia operária ou nômade. Para o mestre em devir, o devir-aluno é um amigo inessencial, um amigo de acordos com o qual se pode construir um mundo, um amigo sem imagem, nosso amigo sem rosto.

A qualidade da amizade deleuzeana como relação pedagógica em contraste com certas metodologias educacionais disponíveis e o caráter do aprender que tal amizade proporciona em face da finalidade de todo saber, isto é, a competência no manejo de certas regras que torne o conteúdo de uma disciplina (Matemática, Gramática, Filosofia etc.) operacional.

Quando nos referimos à amizade como base da relação pedagógica, não esquecemos que o aprendizado somente se efetiva através da transmissão de conteúdos: a leitura e as operações fundamentais, por exemplo. A amizade é a paisagem em que as mais diferentes metodologias realizam a transmissão de conhecimento.

As pedagogias ou metodologias educacionais, em geral, vivem enclausuradas em dois tipos de amizade. De um lado o aprendiz isolado que somente teria seu pensamento natural e isento de pressupostos, correspondendo ao mestre que, de certo modo, fiscaliza a naturalidade do aprender, a fim de que a espontaneidade do aluno não seja tolhida ou aviltada pelos pressupostos artificiais e viciosos. O aluno, neste caso, é dotado de uma boa-vontade original, nele reside uma aptidão para aprender o que está ao alcance de todo mundo. De outro lado, está o aluno escolado, aquele que já nasce predeterminado por uma cultura em ressonância com certo amadurecimento sensório-motor, de modo que, para ele, aprender é colocar em ação os pressupostos que sua imersão cultural lhe confere potencialmente. Neste caso, o professor é aquele que emula tais pressupostos, aproveitando-se da bagagem do aluno.

O primeiro personagem é ingênuo, sem maldades, mas pode aprender o que todo mundo sabe. Aprender, então, é desfrutar, na relação entre professor e aluno, dessa afinidade como de uma verdade reconhecida por todos. Já o segundo personagem, mesmo que seja uma criança, não possui, e isto necessariamente, a modéstia da ignorância. Ele é eloqüente e tem o que dizer e tem o que dizer, de modo que o professor se coloca numa situação de elo de transmissão numa cadeia de aprendizado que ele próprio não domina. Às vezes, ele não é mais que aprendiz diante do aluno.

A diferença entre ambos é que o segundo, um aprendiz informado, possui pressupostos objetivos e públicos. O professor pode reconhecer quais as bases de seu aprendizado e até consegue, dependendo do ponto de vista pedagógico, anular seus pressupostos para que ele retorne ao estágio incipiente, talvez mais desejável, de acordo com o caso, de um aprendiz informe. Quanto a este, nosso primeiro personagem, quer o professor o desvalorize como o inculto, quer o valorize como a tabula rasa de todo aprender, não é totalmente correto dizer que sua abertura para a aula não tenha pressupostos. Acontece que, ao contrário do outro, seus pressupostos são implícitos ou subjetivos. O seu pressuposto é que ele aprende o que todo mundo sabe e que ninguém pode negar, por isso o professor pode ser, de fato, o mestre que transmite regras e conhecimentos prontos a serem acumulados pelo aluno, sem muitos percalços além daqueles que se pode evitar com a disciplina e as técnicas mnemônicas apropriadas.

Essa clausura entre o aprendiz informe e o informado rompe-se quando entra em cena o aprendiz que nega tanto os pressupostos objetivos da cultura quanto os pressupostos subjetivos de um aprendiz natural. Este, realmente, não tem pressupostos, pois não pode nem mesmo aprender o que se espera de todo mundo. O aluno sem pressupostos coloca na impotência o ponto de partida de todo aprender. Ele nega que a sua capacidade de aprender tenha qualquer afinidade com a verdade universal válida, seja ela natural ou cultural, dependendo da pedagogia ou metodologia considerada.

É esse personagem destituído de pressupostos que a filosofia de Deleuze e Guattari nos impõe pensar, a fim de que desenvolvamos uma outra imagem do que seja aprender e ensinar.

Afirma Deleuze: “(...) muita gente tem interesse em dizer que todo mundo sabe isto, que todo mundo reconhece isto, que ninguém pode negar isto. (Eles triunfam facilmente, enquanto um interlocutor desagradável não se levanta para responder que não quer ser assim representado e que nega, que não reconhece aqueles que falam em seu nome)”.

Não ter pressupostos, essa é a solidão do aluno quando ele está imerso em vacúolos de silêncio e solidão. Reconciliar-se com a solidão é o único alicerce para a confiança pragmatista que é um dos traços da relação que se estabelece entre professor e aluno.

O personagem-aprendiz e o personagem professor de cada pedagogia, além de representarem o que significa o ato de aprender, em sua relação, trazem consigo, igualmente, um modo de vida.

A amizade entre professor e aluno, a confiança que entre eles se estabelece, não é uma paisagem condicionada pela transmissão de conteúdo de acordo com este ou aquele método pedagógico. Antes, a amizade entre professor e aluno independe da paisagem onde eles se encontram. A desrostificação como efeito da amizade deleuzeana não só produz o professor e o aluno como amigos sem rosto, como, ao mesmo tempo, acarreta uma despasageificação das cenas em que se desenvolvem as metodologias educacionais disponíveis, seja ela informe ou informada. Trata-se de, ao invés da desconfiança ou de uma atitude de deslumbramento diante destas pedagogias, uma busca dos problemas que nelas permanecem virtualmente ocultos.

Para Deleuze saber e aprender se imbricam, posto que toda pedagogia ou técnica educacional tem por finalidade um saber, mas qualquer uma, igualmente, contém um aprender. O que a amizade pedagógica valorizada por Deleuze propõe é que aprender seja colocado em primeiro plano pelas pedagogias que, muitas vezes, o escamoteiam ou sufocam em função de um saber.

Aprender é o salto que leva do não-saber ao saber. Nesse caminho, muitas coisas acontecem, muitas marcas riscam nossos corpos ou ficam gravadas como memória de um tipo especial. Aprender é sempre algo da ordem do virtual, do inconsciente, de que o corpo participa, necessariamente. Por isso aprender carrega consigo uma violência, um adestramento diverso daquele que caracteriza o saber, o qual, como resultado de um aprender, é o domínio das regras de uma disciplina.

Conectar um corpo e um objeto através de uma ideia, essa é a principal razão pela qual podemos dizer, com Deleuze, que o aprender um tipo especial de amizade. Ensinar significa criar condições ou, antes, deixar correr certas intensidades para que um corpo e uma ideia, uma sensação e um conceito possam encontrar-se sob circunstâncias que nunca se repetem. Aluno e professor estão em um mesmo movimento, eles desconhecem para onde vão, como se remassem um barquinho à deriva no grande mar entre o não-saber e o saber. Não reconhecer o destino é o que torna a aventura do aprender o lugar da confiança.

Deleuze diz: “nunca se sabe de antemão como alguém vai aprender, que amores tornam alguém bom em Latim, por meio de que encontros se é filósofo, em que dicionários se aprende a pensar”. Embora a amizade entre professor e aluno seja um elo pedagógico, também é verdade que o aprender implica uma solidão própria a uma “estética da existência”, no sentido foucaultiano  do termo, pela qual aprendemos a nos dobrar sobre nós mesmos, em busca de um governo de si que lance novos modos de existir. Ser feliz com essa solidão é a lição básica de uma pedagogia que vibra com o pensamento de Deleuze e Guattari.

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