Em “As Palavras e as Coisas”
Foucault mostra que o homem, na Idade Clássica, não é pensado como tal, mas “à
imagem” de Deus, precisamente porque suas forças se compõem com forças do
infinito. No século XIX, ao contrário, essas forças do homem enfrentam forças
de finitude, a vida, a produção, a linguagem, de tal maneira que o composto é o
forma-homem. E assim como essa forma não preexistia, ela não tem nenhuma razão
para sobreviver e as forças do homem entrarem ainda em relação com novas
forças: o composto será um novo tipo de forma, nem Deus, nem homem. Por
exemplo, o homem do século XIX enfrenta a vida, e se compõe com ela como força
do carbono. Mas quando as forças do homem se compõem com a do silício, o que
acontece, e quais novas formas estão em vias de nascer? Foucault tem dois
predecessores, Nietzsche e Rimbaud, aos quais ele acrescenta sua versão: que
novas relações temos com a vida, com a linguagem? Quais as novas lutas com o
poder?
Foucault escreveu que o tema
geral de suas pesquisas não foi o poder, mas o sujeito, os modos de
subjetivação do ser humano. O Foucault cartógrafo (cartografia como a exposição
das relações de força que constituem poder) teria desenhado, ao invés de mapas,
carteiras de identidade, mais sem identidade que identitárias.
Subjetivação consiste,
essencialmente, na invenção de novas possibilidades de vida, segundo Nietzsche,
na constituição de verdadeiros estilos de vida. Foucault não emprega a palavra
sujeito, como pessoa ou forma de identidade, mas o termo subjetivação, no
sentido de processo, e “Si”, no sentido de relação (relação a si). Trata-se de
uma relação de força consigo (ao passo que o poder era a relação da força com
outras forças), trata-se de uma dobra da força. Segundo a maneira de dobrar a
linha de força, trata-se da constituição de modos de existência, ou da invenção
de possibilidades de vida que também dizem respeito à morte, a nossas relações
com a morte; não a existência como sujeito, mas como obra de arte. Trata-se de
inventar modos de existência, segundo regras facultativas, capazes de resistir
ao poder bem como se furtar ao saber, mesmo se o saber tenta penetrá-los e o poder
tenta apropriar-se deles. Mas os modos de existência ou possibilidades de vida
não cessam de se recriar, e surgem novos.
Foucault não retorna ao sujeito. A
subjetivação tem pouco a ver com o sujeito. Trata-se antes de um campo elétrico
ou magnético, uma individualização operando por intensidades (tanto baixas como
altas), campos individualizados e não pessoas ou identidades. A ideia de
subjetivação não é menos original que a de poder e de saber: as três constituem
uma maneira de viver, uma figura em três dimensões.
Foucault é um filósofo que
inventa com a História uma relação inteiramente diferente que a dos filósofos
da História. A História, segundo Foucault, nos cerca e nos delimita; não diz o
que somos, mas aquilo que estamos em vias de diferir; não estabelece nossa
identidade, mas a dissipa em proveito do outro que somos. A História é o que
nos separa de nós mesmos, e o que devemos transpor e atravessar para nos
pensarmos a nós mesmos.
O que se opõe ao tempo assim como à eternidade, é a
nossa atualidade. Foucault é o mais atual dos filósofos contemporâneos, aquele
que mais radicalmente rompeu com o século XIX. É a atualidade que interessa
Foucault, o mesmo que Nietzsche chamava de o inatural ou o intempestivo, a
filosofia como ato de pensar.
Pensar é um ato perigoso. Pensar é
primeiramente, ver e falar, mas com a condição de que o olho não permaneça nas
coisas e se eleve até as “visibilidades”, e de que a linguagem não fique nas
palavras ou frases e se eleve até os enunciados. É o pensamento como arquivo. Além
disso, pensar é poder, isto é, estender relações de força, com a condição de
compreender que as relações de força não se reduzem à violência, mas constituem
ações sobre ações, ou seja, atos, tais como incitar, induzir, desviar,
facilitar ou dificultar, ampliar ou limitar, tornar mais ou menos provável. É o
pensamento como estratégia. Por fim, é a descoberta de um pensamento como
processo de subjetivação: não é um retorno ao sujeito, trata-se da constituição
de modos de existência, como dizia Nietzsche, a invenção de novas
possibilidades de vida. A existência não como sujeito, mas como obra de arte.
O poder é precisamente o elemento
informal que passa entre as formas do saber, ou por baixo delas. Por isso ele é
dito microfísico. Ele é força, e relação de forças, não forma. E a concepção
das relações de força em Foucault, prolongando Nietzsche, é um dos pontos mais
importantes de seu pensamento. É uma outra dimensão que não a do saber, ainda
que o poder e o saber constituam mistos concretamente inseparáveis.
A partir de a “Vontade de Saber”
Foucault tem cada vez mais o sentimento de estar se fechando nas relações de
poder. E por mais que invoque pontos de resistência como contraposição aos
focos de poder, de onde vêm essas resistências? Foucault se pergunta: como
transpor a linha, como ultrapassar as próprias relações de força? Ou será que
estamos condenados a um face a face com o Poder, seja detendo-o, seja estando
submetidos a ele?
Transpor a linha de força,
ultrapassar o poder, isto seria como que curvar a força, fazer com que ela
mesma se afete, em vez de afetar outras forças: uma dobra, segundo Foucault,
uma relação de força consigo. Trata-se de duplicar a relação de forças, de uma
relação consigo que nos permeia resistir, furtar-nos, fazer a vida ou a morte
voltarem-se contra o poder. Não se trata mais de formas determinadas, como no
saber, nem de regras coercitivas, como no poder: trata-se de “regras facultativas”
que produzem a existência como obra de arte, regras ao mesmo tempo éticas e
estéticas que constituem modos de existência ou estilos de vida. É o que
Nietzsche descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção
de novas possibilidades de vida.
Um processo de subjetivação, isto
é, uma produção de modos de existência, não pode se confundir com um sujeito, a
menos que se destitua este de toda interioridade e mesmo de toda identidade. A subjetivação
sequer tem a ver com a “pessoa”: é uma individualização, particular ou coletiva,
que caracteriza um acontecimento. É um modo intensivo e não um sujeito pessoal.
É uma dimensão específica sem a qual não poderia ultrapassar o saber e nem
resistir ao poder. Foucault analisará os modos de existência gregos, cristãos,
como eles entram em certos saberes, como eles se comprometem com o poder. Mas,
neles mesmos, eles são de outra natureza. Por exemplo, a Igreja como poder
pastoral não vai parar de querer conquistar os modos de existência cristãos,
mas estes não param de questionar o poder da Igreja, mesmo antes da Reforma. E conforme
a seu método, o que interessa realmente a Foucault não é um retorno aos gregos,
mas nós hoje: quais são nossos modos de existência, nossas possibilidades de
vida ou nossos processos de subjetivação; será que temos maneiras de nos
constituirmos como “si”, e, como diria Nietzsche, maneiras suficientes “artistas”,
para além do saber e do poder?
A constituição dos modos de
existência ou dos estilos vida não é somente estética, é o que Foucault chama
de ética, por oposição à moral. A diferença é esta: a moral se apresenta como
um conjunto de regras coercitivas de um tipo especial, que consiste em julgar
ações e intenções referindo-se a valores transcendentes (é certo, é errado...);
a ética é um conjunto de regras facultativas que avaliam o que fazemos, o que
dizemos, em função do modo de existência que isso implica. Dizemos isto,
fazemos aquilo: que modos de existência isso implica? Há coisas que só se pode
fazer ou dizer levado por uma baixeza de alma, uma vida rancorosa ou por
vingança contra a vida. Às vezes basta um gesto ou uma palavra. São os estilos
de vida, sempre implicados, que nos constituem de um jeito ou de outro.
Num grande livro de filosofia, “Clio”,
Péguy explicava que há duas maneiras de considerar o acontecimento, uma
consiste em passar ao longo do acontecimento, recolher dele sua efetuação na História,
o condicionamento e o apodrecimento na História, mas outra consiste em remontar
o acontecimento, em instalar-se nele como um devir, em nele rejuvenescer e
envelhecer a um só tempo, em passar por todos os seus componentes ou
singularidades. O devir não é História; a História designa somente o conjunto
das condições, por mais recentes que sejam, das quais desvia-se a fim de “devir”,
isto é, para criar algo novo. A única oportunidade dos homens está no devir
revolucionário, o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao
intolerável.
Deleuze e Gattari não acreditam
em uma filosofia política que não seja centrada na análise do capitalismo e de
seu desenvolvimento. O que mais os interessou em Marx é a análise do
capitalismo como sistema imanente que não pára de expandir seus próprios
limites, reencontrando-os sempre numa escala ampliada, porque o limite é o
próprio Capital.
No capitalismo só uma coisa é
universal, o mercado. Não existe Estado universal, justamente porque existe um
mercado universal cujas sedes são os Estados, as Bolsas. Ele não é
universalizante, homogeneizante, é uma fantástica fábrica de riqueza e de
miséria. Não há Estado democrático que não esteja totalmente comprometido nesta
fabricação da miséria humana. A vergonha é não termos nenhum meio seguro para
preservar, e principalmente para alçar os devires, inclusive em nós mesmos. Como
um grupo se transformará como recairá na História, eis o que nos impõe um
perpétuo cuidado. Já não dispomos da imagem de um proletário a quem bastaria
tomar consciência.
Existe algum modo para que a
resistência dos oprimidos possa tornar-se eficaz e para que o intolerável seja
definitivamente banido?
As minorias e as maiorias não se
distinguem pelo número. Uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. O que
define a maioria é um modelo ao qual é preciso estar conforme. Ao passo que uma
minoria não tem modelo, é um devir, um processo. Pode-se dizer que a maioria
não é ninguém. Todo mundo, sob um ou outro aspecto, está tomado por um devir
minoritário que o arrastaria por caminhos desconhecidos caso consentisse em
segui-lo. Quando uma minoria cria para si modelos, é porque quer tornar-se
majoritária, e sem dúvida isso é inevitável para sua sobrevivência ou salvação.
Mas sua potência provém do que ela soube criar, e passará mais ou menos para o
modelo sem dele depender. O povo é sempre uma minoria criadora, e que permanece
tal, mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque
não são vividas no mesmo plano.
Deleuze procurou aprofundar o
estudo de três práticas de poder: o Soberano, o Disciplinar, e, sobretudo, o de
Controle sobre a comunicação, que hoje em dia está em vias de se tornar
hegemônico.
Foucault é com frequência
considerado o pensador das sociedades de disciplina, e de sua técnica
principal, o confinamento (não só o hospital e a prisão, mas a escola, a
fábrica, a caserna). Ele é um dos primeiros a dizer que as sociedades
disciplinares são aquilo que estamos deixando para trás, o que já não somos. Estamos
entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais como confinamento,
mas por controle contínuo e comunicação instantânea.
Quando se considera as diversas
maneiras pelas quais os indivíduos ou as coletividades se constituem como
sujeitos, pode-se falar de processos de subjetivação; tais processos só valem
na medida em que, quando acontecem, escapam tanto aos saberes constituídos como
aos poderes dominantes. Mesmo se na sequência eles engendram novos poderes ou
tornam a integrar novos saberes. Mas naquele preciso momento eles têm
efetivamente uma espontaneidade rebelde.
Acreditar no mundo é o que mais
nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar
no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que
escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume
reduzidos. É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de
resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo
tempo de criação e povo.

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