Cotidiano
Mistura de fazeres...
Sentimentos... Corpos...
Vida... Que se faz e refaz
Em virtuais flutuações...
Bifurcações...
(Miriam B. C. de Camargo)
O
cotidiano escolar, como sabemos, é um espaço microssocial de misturas,
flutuações e bifurcações, como o poema de Camargo acima, diríamos o “caos”.
Caos no sentido de multiplicidade, que espelha os desafios sociais, enfrentados
por seus atores, mas também são espaços que podem ser de experimentação e busca
de outros modos de fazer as coisas, de criar outros modos de vida, o que remete
à ideia de uma ética, no sentido de invenção de possibilidades de vida na
direção de Spinoza, Deleuze e Foucault – Diria Nietzsche, a vida como obra de
arte, onde a minha prática se assemelha ao artista que nas pinceladas de sua
tela, expressa um impulso interno, o seu real desejo, diferente da moral, na
qual sigo um conjunto de regras impostas por outrem. A ideia chave da moral
seria “você deve” e, a da ética, “o que eu posso?”
A
Filosofia de Spinoza gira em torno da ideia central: o que pode um corpo?
Talvez pudéssemos trazer essa indagação para o nosso contexto. O que pode a
minha prática cotidiana? Que efeitos na minha vida e na dos meus alunos se
produzem? Como vamos nos transformando em quem somos?
Na
sala de aula, uma postura ética na produção de saberes, talvez fosse seguir o
fluxo dos acontecimentos, agindo na contingência, a partir do desejo dos
envolvidos, cavando possibilidades para a realização de suas aspirações. O
apreender via metodologia de pesquisa abre caminho para uma educação ética ao
envidar esforços na direção do que é possível na expressão dos reais desejos
dos envolvidos.
Desejo
como “todas as formas de vontade de viver, de vontade de criar, de vontade de
amar, de vontade de inventar outra sociedade, outra percepção do mundo, outros
sistemas de valores (GUATTARI & ROLNIK , 2005, p. 261), diferente da
“concepção vigente de desejo para a psicanálise a de um negócio secreto ou
vergonhoso como a psicologia e moral dominantes pretendem” (DAMIN, 2015, p.
22).
Seguir
fluxos de desejo no cotidiano exige abertura para ouvir o outro e pensar junto,
compartilhando ações, angústias, sonhos, em que as decisões são coletivas. Um
cotidiano que se produz na multiplicidade das correlações de forças com seus
jogos incessantes de afrontamentos a transformá-los e nos pressionar
constantemente.
“O cotidiano é aquilo que nos prende
intimamente, a partir do interior. É uma história a meio caminho de nós mesmos,
quase em retirada, às vezes velada. É um mundo que amamos profundamente,
memória olfativa, memórias dos lugares da infância, memória do corpo, dos
gestos da infância, dos prazeres. Talvez não seja inútil sublinhar a
importância do domínio desta história “irracional” ou desta “não-história”. O
que interessa ao historiador do cotidiano é o invisível...” (CERTEAU, 2012, P.
31).
Operar
nesses espaços exige o mergulho nesse mar virtual de memórias para tentar
apreender fluxos de sutilezas e nuances nas “artes de fazer” em que se criam
táticas frente às imposições dogmáticas do aparelho de Estado que tudo pretende
burocratizar e controlar.
“Táticas que são saberes sem discurso, sem
escritura, solidários de operações múltiplas e anônimas, excluído pelos saberes
da administração e do controle, mas não menos criadores e subversivos por isso.
Saberes e Artes de Fazer que irritam e estimulam a domesticação, mas também
anunciam e apelam a criação engenhosa, dando esperanças de que, nos
interstícios dos códigos impostos, toda uma série de táticas subterrâneas possa
dar vida a ações sem autores e sujeitos sem nome, demolindo as verdades de
discursos morais, políticos e tecnocráticos que intentam fabricar o
conformismo.” (SOUZA
FILHO, 2002, p. 133).
Michel
de Certeau (2012), ao problematizar as Artes de Fazer na sociedade de consumo,
aponta a sua capacidade de driblar os mecanismos e propõe os conceitos de
tática e estratégia, que fazem parte de um mesmo processo na tentativa de
organização de uma sociedade. As estratégias são ações que graças a um lugar de
poder, à propriedade de um próprio, os que “elaboram lugares teóricos (sistemas
e discursos totalizantes), capazes de articular um conjunto de lugares físicos
onde as forças se distribuem” (CERTEAU, 2012, p. 96), privilegiam as relações
espaciais e têm como modelo o “científico”, antes foi o militar.
A
teorização da prática por professores e gestores, que vivem o cotidiano escolar,
pode contribuir para pulverizar esses “sistemas e discursos totalizantes”,
criando discursos singulares, transversais, comprometidos com a realidade
microssocial, onde a produção de conhecimento local realmente “empodere” essas
instâncias micropolíticas, em que o exercício de poder seja compartilhado,
fortalecendo as ações coletivas.
Problematizar Práticas
Teorizar
práticas pressupõe problematizar aspectos que nos chamam a atenção, aqueles que
sempre nos pegamos ruminando, algo que nos incomoda e possibilita ativar e
legitimar saberes sobre “nossos modos de fazer” no cotidiano da sala de aula.
O
estudo da prática pedagógica é simultaneamente “uma atividade intelectual,
política e de gestão de pessoas” (PONTE, 2002, p. 1), na qual estamos em
constante indagação sobre os modos de pensar e as dificuldades de nossos alunos
no processo de aprender, em que o processo vai se construindo na reflexão sobre
a ação e possibilita o desempenho das funções de pesquisador e pesquisado na
mesma pessoa.
Logo,
como protagonistas no campo curricular e profissional têm maiores condições de
compreender e transformar os problemas emergentes na prática pedagógica, no dia
a dia de uma sala de aula e também com maior conhecimento das instituições,
onde essas práticas se inserem, podendo contribuir para o conhecimento do saber
profissional do professor, que segundo Gauthier (1998) “é um ofício universal”,
remonta a Grécia antiga com papel fundamental em nossas sociedades
contemporâneas e que sabemos muito pouco sobre:
“(...) os fenômenos que lhe são inerentes.
De fato mal conseguimos identificar os atos do professor, que, na sala de aula,
têm influência concreta sobre a aprendizagem dos alunos, e estamos apenas
começando a compreender como se dá a interação entre educador e educandos. No
entanto o conhecimento desses elementos do saber profissional docente é fundamental
e pode permitir que os professores exerçam o seu ofício com muito mais
competência. O que é preciso saber para ensinar? (ibidem, p. 17)
Essa
preocupação com o saber docente é muito antiga, mas somente na década de
noventa importantes pesquisas foram realizadas na América e Europa “descrevendo
a prática docente a partir de pesquisas efetuadas diretamente na sala de aula”
(ibidem, p. 18) por pesquisadores externos, aqueles que apenas observam e
descrevem o que acontece. Os resultados dessas pesquisas não se mostraram
convincentes, pois a tarefa é muito mais complexa do que imaginaram esses
pesquisadores.
A
pesquisa realizada pelo professor sobre a sua própria atividade docente
possibilita trazer à luz “saberes que lhe são inerentes” (ibidem, p.19) em
condições gerais de seu exercício, em que o contexto lhe é familiar, diferente
de pesquisas realizadas por pesquisadores externos à escola, que nem sempre
“levam em conta as condições concretas de exercício do magistério” (ibidem, p.
19). Processo de investigação que envolve a formulação do problema; a coleta de
informações com elementos que possibilitem o estudo; discussão das informações
e divulgação dos resultados obtidos.
Problematizar
e teorizar a prática cotidiana por professores e gestores como uma forma de
compartilhar e trazer à visibilidade saberes, construído ao longo de décadas no
exercício da profissão. Afinal, quem melhor conhece esses espaços e seus
desafios?
Um
saber proveniente de sua própria atividade em um meio que é comum o “consumo de
teorizações construídas por profissionais que nunca atuaram numa sala de aula”
(TARDIF, 2002, p. 241).
Atentar
para o saber na ação, acumulado ao longo de tempo ao repensar o aprendizado
cotidiano, problematizando-o, é uma forma de trazer à visibilidade estratégias
usadas em salas de aula, que encarnam conceitos sobre o modo de entender os
valores educacionais. “Professores e professoras estão sempre a teorizar, à
medida que estão confrontando-se com vários problemas pedagógicos, por exemplo,
a diferença entre as suas expectativas e os resultados” (GERALDI, MESSIAS E
GUERRA, 2001, P. 248).
Podemos
iniciar esse processo escrevendo livremente o que surgir, uma forma de produção
de saberes se aproxima de uma cartografia como uma “micropolítica da percepção
da afecção, da conversa etc.” (DELEUZE E GATTARI, 1996, p. 90) a apontar
pistas. Rastros de situações que, de alguma forma, impulsionaram o processo
educativo em textos, falas, gestos. Como posso compor possibilidades de
educação, vida,, não sobre, mas com os alunos, demais professores, gestores,
filósofos e de autores que vão sendo chamados pelo próprio texto.
Exercitemos
o percurso: “Dos desejos próteses em desejos devir” (ALTEM, 2013, p. 95). A
autora se interroga: Em que medida nossos desejos são realmente nosso ou
agenciados por uma mídia capitalista, em que somos meros fantoches da máquina
de produção do imaginário coletivo?
Próteses
de Desejos
Quais são os meus verdadeiros
desejos?
Desejo de ter
Desejo de ser
Desejos meus
Desejos de outrem.
Desejos impostos ou desejos
infiltrados.
Desejos de mim
Desejos de ti
Desejos qualificados
Desejos quantificados
Desejo do saber
Desejo de justiça
Desejo de luta
Desejo de igualdade
Desejos satisfeitos ou
desejos esquecidos.
Desejos de voar longe,
Longe dos desejos
padronizados.
Desejos de desejos...
Conheçamos nossos desejos.
Mergulhemos neles a
descortinar o inimaginável.
Dos desejos próteses em
desejos devir...
(Denilda Altem)
Texto de Maria
Aparecida da Silva Damin – Professora aposentada da Rede Estadual de Educação,
Mestra em Educação e Doutora em Educação, FE/Unicamp.

adorei o texto a imagem do blog! quanta poesia! seus questionamentos são tão pertinentes e densos que irei me demorar neles, hehehehe. orgulhoso de ser seu amigo!!!
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